JOGO DE BOTÃO

JOGO DE BOTÃO
JOGO DE BOTÃO

sexta-feira, 11 de abril de 2014

UM TEMPO SEM KIWI E SEM HERÓIS -


Opções daquela época: pedalar bicicleta, jogar futebol, brincar de autorama, jogar bolinhas de gude e futebol de botão. Sou de um tempo sem kiwi.  Não havia kiwi,  não havia sushi, o pão era semolina de meio  quilo, tudo era mais difícil naquela época.  Também não havia internet, logo não havia e-mail ou Facebook, não havia nem celular e nós nem  sequer tínhamos telefone fixo em casa.  Como nos  comunicávamos ?  Não sei.  Como arranjávamos amigos  e namoradas ?  Não faço a mais tísica idéia.
Que mundo estranho era aquele sem kiwi. 
Naquele tempo tão longe, de mim distante, os guris não sonhavam em ganhar iPad de Natal.  Não, não, nossos  anseios, basicamente, se resumiam a três presentes.
1 - Uma bola de couro no. 5, coisa rara.
2 - Uma bicicleta, coisa caríssima.
3 - Um autorama, coisa para nababo.
Uma vez ganhei uma bola de couro no. 5, costurada a mão por algum presidiário, gomos pretos e brancos, uma lindeza, o único tipo de bola que deveria ser utilizado em quaisquer campeonatos do mundo para todo o sempre, amém.
Lembro-me da pena que senti em chutá-la pela primeira vez, mas, eu tinha de chutá-la, para isso ela existia, e a chutei com gosto, todos nós da turma a chutamos, jogos épicos foram disputados com aquela relíquia, marquei gols com ela, sim, os marquei, até que ela foi gastando com o tempo e com o uso, e logo a tinta branca e preta desbotou, e em  seu lugar restou o cinza sujo do couro, e um dia a costura de um gomo se abriu como uma fenda na carne, e olhei para a minha linda bola de couro número 5 com alguma tristeza,  sabia que ela estava chegando ao  fim, mas sabia, também, que tudo na  vida nasce, alcança o auge, passa pela decadência e morre, e via que a morte da minha bola se  iniciava,  e logo os gomos foram se soltando, um a um, um  por jogo, e em pouco tempo ela parecia uma velha casa  com a tinta descascada e as janelas arrombadas, uma casa  abandonada e melancólica, e logo ela nem rolava mais direito, e um dia foi substitida por uma bola novinha que algum outro guri ganhou de aniversário, e foi posta  de lado, e murchou, esquecida, como murcham até os  grandes sentimentos, e morreu como morrem até os  amores imortais.
Foi triste perder aquela bola.  Mas valeu a pena, porque você só perde o que você um dia teve, e eu a tive.
Autorama, não.  Autorama nunca tive.  Autorama era areia demais  para o caminhãozinho financeiro da família.  Mas bicicleta um dia ganhei.  Recordo minúcias daquele feliz Natal.  Foi um esforço conjunto de mãe,  vô, madrinha e vó.  Um mutirão.  E lá estava ela, uma Caloi azul escura, de trava torpedo, aro grosso, pneus pretos da espessura do meu braço.  Que emoção.
Era uma bicicleta sem marchas.  Ninguém ganhava bicicleta com marcha num tempo sem kiwi.  Depois é que surgiu a Caloi  10.  Dez marchas, um luxo.  Diziam que com uma bicicleta de 10  marchas você podia subir a lomba da Lucas de Oliveira assobiando, mas acho que era lenda.
De qualquer forma, percorri toda a cidade com a minha Caloizinha.  Saíamos em cardumes, pedalando pelos bordos das avenidas .  Fomos até a longínqua Zona Sul, região por nós desconhecida e habitat de gente esquisita, que convivia com o rio.  Fomos até a inóspita Alvorada.  Nos aventuramos pela Freeway.  Pedalamos, pedalamos, e nem sabíamos que éramos heróis.
Como o tempo é injusto com os homens.  Fosse hoje, seríamos incensados na cidade.  Seríamos reportagem de  jornal.  Seríamos personagens de discurso na Câmara.  Sim, porque agora, neste tempo de kiwis, existe a  crença de que andar de bicicleta muda o mundo, de  que andar de bicicleta é fazer a Revolução.
Quem poderia imaginar ?  Nenhuma daquelas  duplas famosas, Marx & Engels, Lenin & Trotski, Fidel & Tche, nenhum deles imaginaria que o capitalismo seria  abalado a pedaladas.
Mais amor, menos motor.
  Tem lugares que aplicam essa máxima.
Mas, felizmente, também havia o jogo de Futebol de botão.
A GRANDE DECISÃO.
Eu não era bom no gude.  A começar pelo meu  nhaque, que era ... como direi para não chocá-los ? Digamos que meu nhaque  chamar-se-ia, em termos publicáveis, cloaca.  Ou  ânus de galinha.
Enfim.  O problema é que esse tipo de nhaque não  tem muita propulsão.  E  também, não se podia dizer que minha  pontaria fosse bem  calibrada.  Então, eu me dava mal no jogo de bolinhas de gude, perdia minhas águidas  todas.  Craque era o Edu Brites, o nhaque  mais potente do IAPI.  A bolinha saía da mão do Edu feito um tiro de tresoitão, quebrava a  joga da gente ao meio.
Aliás, o Edu era o tipo de cara bom em tudo.  Existem caras assim.  Ele jogava bem gude, boco, pião, bafo, pingue-pongue e,
o mais importante, futebol.  Tinha um chute de entortar travessões, o Edu Brites.
Só tem o seguinte: não me ganhava no futebol de botão.  Ninguém me ganhava.  Para se ter uma idéia da minha craqueza: nós jogávamos campeonato valendo botão.  Comecei com um time humilde, contratado às pressas, meus puxadores tinham no máximo duas camadas e alguns não passavam de uma.  Acho até que coloquei um "panelinha" (botão de plástico comum) a de improviso na lateral -direita.  Mesmo assim, ganhei tantos títulos que chegou um momento em que 11 times dividiam a caixa de sapatos onde se concentrava a delegação.
Agora um trauma: nunca tive Estádio Estrelão.  Manja Estrelão, o campo do futebol de botão da Estrela ?  Pois é.  Nunca tive.  Uma careza..  Jogava no parquê mesmo, minha mãe enlouquecia porque o assoalho ficava todo dentado pelas fichas.  Estrelão  era coisa rara na turma.  Até que um dia resolvemos nos profissionalizar.  Saímos pela Zona, um pedia madeira, outro pedia tinta, outro pedia grana mesmo.  Conseguimos montar um baita estádio de botão, coisa mais linda.  Era do tamanho de dois Estrelões, seria o Serra Dourada do botão.  Ou melhor: o Maracanã.
Organizamos um campeonato para  inaugurar o estádio.  E, pela primeira vez , não valia botão: valia taça e medalha.  Taça e medalha, cara !  Jamais havia ganho uma única taça, uma única medalha.  Disputei todos aqueles torneios de colégio, torneio de futebol,  de gaita de boca, de nilcon, participei de todas as corridas de carrinho de lomba, de bicicleta e até de patinete, joguei  tudo, sem ganhar uma só medalha, uma só taça, ainda que pequenina.  E agora poderia me redimir !  Sim, porque ninguém me bateria no botão, no botão eu era o maioral, o kid, o Pelé, o John Travolta, o Wianey Carlet !
Começou o campeonato.  E comecei  a ganhar deles todos.  Ganhei do Edu, do Barril, do Zoreia, do Languiça, do Apara Peido, do Floxo.  Cheguei à final. 
Meu adversário era o Diana, aquele que era chamado de Diana porque tinha uma cadelinha chamada Diana. Meu, eu jogava muito mais do que o Diana.  Sempre ganhava dele quando nos enfrentávamos no parquê, se bem que, preciso reconhecer, no parquê o mando de campo era meu.  Mas jogava mais do que ele em qualquer lugar e, como minha campanha fora melhor, só necessitava do empate para levar a taça e a medalha.  Barbada.
Porém, mal o jogo havia iniciado, o Diana, CABUMBA, meteu um gol  lá  do meio do campo.  Mas que bá.  Fiquei meio zonzo.  Até porque a turma, em volta, vibrou.  Pensei: pô, os carinhas estão torcendo pro Diana ?  Malditos traidores.  Fui para cima dele.  Pressão total.  Só que, por algum motivo, os chutes dos meus atacantes não entravam.  Pegava na trave, batia no goleiro, riscava o poste, o zagueirão de três camadas tirava.  Não entrava !  Aquilo foi me enervando.  A partida durava 10 minutos e cinco já haviam se passado.  Lá pelos seis, a bolinha caiu a um palmo do meu meia Rivellino, um puxador de duas camadas muito elegante, azul em cima, branco em baixo, as bordas numa inclinação de 25 graus, que é a inclinação perfeita para um meia de botão.  Rivellino.  Que jogador !  O goleador e maior astro do time.  Um verdadeiro ídolo, os outros botões seguiam  sua liderança.  Pois o meu Riva mandou um  chute de revesgueio,  a bolinha saiu alta, fez  tzin !, chocou-se com o travessão e ... gol do David !!!
Para minha surpresa, o pessoal vibrou também !  Ah, eles queriam era sacanear. 
O problema foi que já na saída o Diana deu um chutinho de nada, um  pum, mas a bolinha rolou como uma  moeda e entrou no meu gol.  Faltavam uns dois minutos e meio, a turma não parava de fazer barulho em volta, eu pressionando, eu chutando, eu tentando, e nada.
Aí a bolinha parou diante do Rivellino outra vez.  Respirei fundo.  O jogo ia terminar.  Como diriam os  narradores, estávamos no apagar das luzes, não havia tempo para mais nada, era o último cartucho.
Fiz pontaria.  Respirei fundo de novo. Assentei a ficha em cima do botão.  Anunciei:
- A gol !
O Diana:
- Chuta !
Respirei fundo pela terceira vez.  Pensei na taça.  Na medalha.
Finalmente teria uma taça e uma medalha !  Meu coração se apertou, ao lembrar delas, tão faiscantes.  E aí, minha mão pesou e a ficha escorregou.
O Riva deslizou torto, bateu torto na  bolinha e, para meu desespero, foi para fora !  O jogo terminou.  A turma vibrou.
Cara, fiquei nervoso com aquilo de taça e medalha e perdi !  É por isso que entendo as exigências de uma decisão.  É por isso que sei o valor de quem não se abala numa final.


TEXTOS DE DAVID COIMBRA, COLUNISTA DE ESPORTES DO JORNAL ZERO HORA DE PORTO ALEGRE - RS.
REPRODUÇÃO DE ENIO SEIBERT.

Um comentário:

  1. David Coimbra escreve demais. Gosto de ler seus artigos e esse especialmente, pois tocou em algo que também vivi em meus tempos de criança. Tudo isso aconteceu comigo, só que a bicicleta eu ganhei em uma rifa. De resto adorei a história e seu esfecho fantástico. Parabéns.

    ResponderExcluir