JOGO DE BOTÃO

JOGO DE BOTÃO
JOGO DE BOTÃO

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

                            Pedaços de Acrílico, por Mateus Pierobom



Era passada uma década, finais dos anos 80, eu, há época, com apenas 4 ou 5 anos de idade questionava à meu Pai sobre o que eram aqueles Botões "grandes", guardados em uma enorme caixa, em um espaço nobre", dentro da prateleira de um armário fechada a chave, junto a eles, algumas camisas, escudos, emblemas, que somente mais tarde descobri do que se tratava, meu Pai, atenciosamente, respondia: "É o time de Botão do Papai. são feito de acrílico."

Me intrigava o fato de tamanha dedicação aquela grande caixa que meu pai tinha, ele chegava em casa, limpava o time com algodão e álcool, dobrava uma fralda bem grande sobre os botões, lacrava a caixa, e como em ato de devoção, talvez em um tipo de ritual maluco, guardava seus "atletas" carinhosamente. Lembro que ele juntava revistas, recortes de jornais, súmulas, fotos e outros artefatos que registravam suas honrarias, seus títulos, seus troféus, em pouquíssimo tempo de vida passei a frequentar o "jogo de botão", lembro que a época, já nos anos 90 na APFM (Associação Pelotense de Futebol de Mesa) conheci alguns amigos que cercam minha vida de emoção até hoje. José Bernardo Figueira é um deles, junto com outras lendas hoje associados a Academia de Futebol de Mesa. Me chamou a atenção o fato de haverem muitas pessoas jogando botão. Àquela época não havia muitas crianças e meu irmão mais velho Michel Pierobom já jogava. De vez em quando, entre um jogo e uma arbitragem, ele me emprestava seu velho Guarani para dar os primeiros chutes. Desde então me apaixonei por aqueles pedaços de acrílicos, mágicos, místicos. Daí pra frente conheci alguns amigos, jovens à época como eu.

Comecei em meados de 92 a disputar minhas primeiras partidas, com alguns garotos que rondavam a APFM, entre eles Bernardo Figueira e Juninho. Os outros não lembro pois tenho péssima memória! Há essas alturas, não desgrudava de meu querido Pai, que me levava todos os sábados para o culto sagrado, o jogo de botão. Todos mexiam comigo pela minha voz fina, principalmente o Osmar Iost e o Marcelo Cepel, mas nada que pudesse me afastar ou me encabular. Meu primeiro time foi um Danúbio do Uruguai, todo azul, parecia um time do Becker, azul desbotado e todo empenado, a escalação teria a assinatura de nada mais nada menos do que Aldyr Schelle, o velho.

Havia pesquisado após encomenda de meu Pai a escalação, lembro de alguns atletas como Daniel Odine (craque), Gustavo España, R. Bitencourt, Da Luz, e Carrabis (até hoje meu goleiro, que também atende pelo nome de Cannabis). Esta escalação se manteve no meu 2º time, que na verdade era uma antigo time de meu Pai, com o qual já havia sido campeão estadual e da Taça-RS no início dos anos 80.

Lembro bem que neste tempo a divisão especial da APFM era muitíssimo disputada, com botonistas de alta qualidade, como Zé Felipe, Aldirzinho, Pierobom, Alexandre Gomes, Marcelo Cepel, Getúlio, (seu filho também jogava muito, não me recordo seu nome, mas jogava com um Palmeiras), além de outros.

Mas me chamava muito a atenção da qualidade de 2 jogadores: Aldyr e Alexandre, este último se tornou até hoje o meu maior ídolo no esporte. Rapaz que transparecia valores além do futebol de mesa, como cavalheirismo, companheirismo, honestidade e humildade. Não bastasse isso ele era um monstro na mesa, homem de habilidades raras, jogadas mágicas, fazia o impossível, o improvável, jogava tirando coelhos da cartola, tinha uma postura sempre ofensiva, jogando com 5 Levantes e procurando sempre o gol, mesmo quando não era necessário. Sou seu fã desde antes de os 10 anos de idade, o vi ganhar alguns títulos e tenho a felicidade de te-lo como amigo e de desfrutar de aulas-grátis até os dias de hoje.

Após, chegou uma turma nova de "meninos" na APFM, como Marcelo Vinhas, Bruno, Preguinho, José Victor, meu irmão (Tiago) e outros, nesta época comecei a entender a mística do jogo de botão, comecei a tratar aqueles botões como filhos, cuidava, lixava, tirava o fio, filosofava com eles em casa, antes dos combates, lhes pedia empenho após inúmeras derrotas (visto que eu era no mínimo 2 anos mais jovem do que os outros garotos). Começa a relação pai-e-filho com "meus atletas".

Nessa época lembro que os jogos eram nos domingos pela manha, e Osmar e Figueira se revezavam em me pegar em casa para jogar, eu juro que nunca vou entender o carinho que estes homens tem pela minha pessoa. Passadas 2 ou 3 temporadas nos juvenis da APFM, não poderia mais jogar botãao pois haveria sido extinta a categoria juvenil daquele ano e eu tinha apenas 11 anos, idade insuficiente para jogar a divisão de acesso (1a divisão). neste mesmo ano é fundada a Academia de Futebol de Mesa.

A ACADEMIA

Agremiação a qual faço parte desde seu 1 dia de sua fundação em abril de 1997, são fundadores os senhores: Paulo Zilberknop, José Bernanrdo Figueira, Luis Fernando Silva, Osmar Iost Jr., Jorge Luiz Ferreira Malhão, Alexandre Schlee Gomes, Sérgio Pierobom e Diego Figueira. Estes homens são os meus mestres e os meus professores, me ensinaram tudo o que sei sobre Futebol de Mesa. Tenho uma dívida impagável com estes homens. Agradeço todos os dias por eles fazerem parte da minha vida. Me ensinaram valores que levarei pra sempre, em qualquer âmbito da minha vida.

Então em 1997, aos 11 para 12 anos de idade, pela 1a vez, eu poderia jogar com as feras, com meus ídolos, essa época da minha vida no esporte considero minha época auge, me deslumbrava a cada sábado ao saber o que era possível se fazer numa mesa, a cada sábado eu me sentia mais forte, mais evoluido. e Após pelo menos 3 anos apanhando e aprendendo comecei a incomodar nos campeonatos internos, e logo após vieram alguns títulos internos no início dos anos 2000. Já na Academia ganhei meu 3 time, este da Juventus, mandei fazer do jeito que eu queria, jogo com a Juve até os dias de hoje, com a mesma escalação.

O LISO

O liso foi um caso de amor que começou em 2000 no campeonato Brasileiro em Porto Alegre, no qual eu não tinha vaga para a modalidade livre, sobrou vaga pro liso, peguei um velho time emprestado do Figueira e fui jogar. Somente havia jogado um unico campeonato uma ou 2 semanas antes.

Na primeira rodada eu apitei um jogo e descobri que se cobrava tiro de meta com o botão saindo para a lateral. No decorrer do campeonato aprendi que não se cobria, se dava tapa. Consegui a façanha de ser o 3
colocado naquele ano, após vitórias sobre lendas como Diógenes, Weber, Rocha, Moscoso entre outros. Caí fora na semi nos pênaltis para Soneca, que naquele ano sagrou-se campeão brasileiro. Nasceu ali uma paixão que depois fora aflorada em 2009 quando retornei de Santa Catarina.

Comecei jogando de cavado pois o liso foi se acabando no Rio Grande do Sul já nos anos 80, na medida em que o clima não colaborava para termos boas mesas de liso e pudéssemos competir com os baianos, além disso jogar de cavado é muito mais fácil para quem não tem muita destreza técnica, e desta forma alguns competidores menos técnicos da época se tornavam mais competitivos para encarar as feras que jogavam de liso, e sorrateiramente o cavado ganhou toda a nossa atenção por mais de 15 anos, foi de cavado que aprendi a jogar, mas nos dias de hoje só jogo de liso.

No ano de 2004 parti daqui para Santa Catarina, onde fiquei até 2008 sem sequer ver um time de botão na minha frente. Eram poucas as notícias que eu tinha através de meu grande amigo Luis Fernando. Ficava emocionado ao saber das noticias do futebol de mesa. Soubera que meu irmão Tiago havia sido campeão Pelotense, e que meu amigo Marcelo ganhava de todo mundo, acumulava títulos.

O RETORNO

Quando voltei para Pelotas não tive dúvidas de que após quase 4 anos parado, era hora de resgatar meus atletas, peguei a Velha Juve e fui pra mesa, no início foi difícil, as mãos pareciam não respeitar a vontade da mente, mas aos poucos fui a calibrando e conseguindo bons resultados nas mesas. comecei a colocar em prática tudo o que havia aprendido.

Aprendi com meus mestres a respeitar o adversário, ser cavalheiro, cumprimentá-lo antes e depois de cada partida. Aprendi que tudo o que importa é a amizade, o companheirismo, vale mais do que qualquer vitória pessoal, para isso é necessário honestidade, porque uma vez que você aceita uma marcação do árbitro a seu favor, a qual você sabe que é incorreta, deve se acusar, pois tudo o que é nosso está guardado, e o que não é nosso não é nosso. Vale mais a honra do que um resultado. Aprendi que a acreditar no impossível, no improvável, porque o impossível só é impossível para que não não o deseja, quem não acredita não alcança. Confiança é o que me move. Aprendi a perder com honra, e vencer com honra.

A FAMÍLIA

Meu Pai começou em 79, e passou o gosto pelo jogo para todos os 5 filhos, 2 deles não praticam mais. Fazíamos campeonatos em casa, eu nunca ganhei nenhum, na verdade quase sempre fui a baba. A primeira vez que ganhei de meu pai uma partida (oficial e amistosa) foi em 2009, ou seja 17 anos após começar a jogar, antes disso jamais o havia vencido. Ele entra na mesa contra mim como se fosse mágico, acerta tudo, parece que está constantemente me ensinando a jogar, de lá para cá obtive muito mais vitórias do que derrotas para ele, mas ele continua me dando aulas.

Meu irmão mais velho Michel já parou de jogar, mas na minha opinião é dos irmãos o que jogava com mais competitividade, tinha muita frieza e precisão, uma pena que abandonou o jogo.

Já o Tiago é o que tem mais mão, e o melhor na opinião do velho Pierobom, ele acredita muito no potencial do Baggio, acho que ele vai dar bom também se tiver mais paciência e rachar mais a rapadura.

O Lucas é o mais novo, começou em 2010, tem muito potencial, mas ta pensando em parar de jogar porque só toma sacode, mas no final de 2012 foi campeão interno por equipes, embora os colegas de equipe fossem muito bons (Zilber e Alexandre) ele teve méritos e se sagrou campeão, tomara que ele não pare. Com o título, ele foi o quinto Pierobom a conquistar títulos na Academia, o que nos enche de orgulho.

O BERRO

Aprendi a berrar com meu grande amigo Paulinho (Zilber). Eu via o quanto ele se emocionava ao gritar em um gol ou em uma bela jogada, ele botava pra fora toda essa emoção, também aprendi que aquilo servia
também para desestabilizar o adversário, deste modo tenho o grito (desde que não-desrespeitoso) como uma técnica, faz parte do jogo, é boa pra mim e ruim pro adversário, assim como um lançamento de corte.

Aprendi enfim que os botões não são pedaços de acrílicos, eles são mais que isso, eles tem vida própria, vontade própria, quantas vezes pensamos numa jogada e o botão executa ela melhor que a encomenda. Botões tem sentimentos, não gostem que os fiquem xingando, gostam de ser tratados como filhos, "meu filho", "meu garoto". Botões tem honra, tem postura.

São mágicos, fazem coisas que até deus duvida na mesa. Eles tem capacidade própria de vencerem, pois acertam a jogada mesmo quando nós a tememos. Botões são iluminados por Deus, quem não tem um atleta
desses? que aparecem nos momentos mais difíceis.

A GRATIDÃO

Sou grato a tudo o que o Futebol de Mesa me proporcionou, amizades, valores, responsabilidades. Sou grato a meus mestres que me ensinaram tudo. Sou grato a meu grande amigo Marcelo Vinhas, amigo de 20 anos (tamo ficando muito velho cara), aos amigos Augusto e Pedrinho, à minha família e a todos os membros da Academia de Futebol de Mesa. Penso que jamais poderei recompensá-los pelo que me proporcionaram, meu pagamento é a gratidão e o repeito que tenho por todos, afinal, me ensinaram do
que eram capazes aqueles pedaços de acrílicos, e tudo o que eles poderiam me oferecer.

Obrigado!!!!

Mathias.
 
 
 
 
Postagem de Enio Seibert- enioseibert@hotmail.com

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