JOGO DE BOTÃO

JOGO DE BOTÃO
JOGO DE BOTÃO

sexta-feira, 20 de maio de 2011

ORIGENS DO JOGO DE BOTÃO

UM GRANDE CLÁSSICO DO FUTEBOL DE MESA, ENTRE "FAMOSOS" DA CULTURA POPULAR BRASILEIRA, VINÍCIUS DE MORAIS  X  CHICO BUARQUE DE HOLANDA

 



                 TESES E HIPÓTESES SOBRE AS ORIGENS DO JOGO DE BOTÃO



 Na Europa do início do século passado está registrada em divulgação no jornal ou folheto impresso “LEADER”, de Londres, Inglaterra, uma foto datada de 1910, onde aparecem dois técnicos-jogadores concentrados na manipulação de seus botões distribuídos sobre uma mesa de jogo com duas goleiras nas suas extremidades.
Seria a origem européia do jogo de futebol de botão?
O futebol de botão também teria se originado na Inglaterra, país dos inventores ou, ao menos, os organizadores do futebol “association” de campo?
No Brasil, no ano de 1930, o carioca Geraldo Décourt publica o primeiro livro de regras do futebol de botão brasileiro, na época chamado de “FOOT-BALL CELOTEX” e que viria a tornar-se um documento histórico pelo seu pioneirismo.
O nome Futebol Celotex foi dado, originalmente, ao jogo de futebol de botão, em decorrência do material usado na época para confecção das mesas de jogo, o qual tinha este mesmo nome. Talvez o Celotex tivesse alguma semelhança com as chapas de eucatex e duratex, utilizadas para a fabricação de mesas de jogos de botão para crianças nos dias atuais.
Geraldo Décourt conquistou o reconhecimento de uma legião de praticantes do botonismo pela sua incansável dedicação em colocar este esporte ao lado dos entretenimentos mais populares do Brasil, utilizando os meios de comunicação social da época (jornais e revistas), para sua divulgação em praticamente todo o país.
Era um intelectual multimídia que trabalhava com música, publicidade, cinema e pintura, além de tornar-se também um escritor, posteriormente.
Por ocasião de um campeonato de futebol de mesa realizado na cidade do Rio de Janeiro, Décourt sagrar-se-ia campeão, recebendo a Taça Odalisca na redação de O CRUZEIRO, revista de circulação nacional, promotora do evento, no qual a veiculação da notícia certamente ajudou em muito a propagação do novo esporte no país.
Recebeu o título de PAPA DO BOTONISMO BRASILEIRO e com o pioneiro Geraldo Décourt aparecem os primeiros registros impressos da existência do futebol de botão no centro político, administrativo e econômico do país.
 No Brasil, tese de Marcelo Coutinho, do Rio de Janeiro, da Federação Carioca de Futebol de Mesa ou Federação de Futebol de Mesa do Estado do Rio de Janeiro, ou, ainda, Federação Botonista do Estado do Rio de Janeiro.
               Os tópicos e trechos foram extraídos de seus comentários na internet, com idéias e argumentos complementados pelo autor da série “O JOGO DE FUTEBOL DE BOTÃO”.
O grande pensador Marcelo Coutinho começa assim a sua linha de raciocínio:
- “Numa época da humanidade em que não havia automóveis e aviões e onde as comunicações mundiais eram escassas, marinheiros teriam trazido da Europa, simultaneamente com o futebol de campo, no início do século passado (1900-1910), quando foram fundados grandes clubes brasileiros de futebol, também uma concepção rudimentar do jogo de futebol de botão, introduzido paulatinamente nas cidades portuárias da costa brasileira.”
Para sua popularização contribuiu o fato dos botões serem baratos e relativamente fáceis de conseguir, ao contrário das caras e escassas bolas de futebol, inicialmente importadas da Europa.
Recorde-se que o futebol, nos primeiros tempos de implantação, era um jogo das elites, com chuteiras caras, bolas raras e jogado de terno e gravata, de calças curtas ou calções de linho. Mais tarde é que as bolas de futebol começaram a ser fabricadas no Brasil, as históricas bolas de tento, costuradas à mão, e utilizando o couro curtido dos nossos curtumes de rebanhos bovinos.
Até hoje o jogo de futebol de botão é o esporte- lazer mais barato dentre todos, e assim pode ser considerado porque as mesas e botões tem durabilidade média mínima de 10 anos, o que dilui o seu custo a praticamente zero, podendo ser praticado diariamente, sem estrago ou desgaste do equipamento, pelo menos quando jogado com as bolinhas tradicionais de plástico (em formatos de pequenos discos, cubos ou botõezinhos), pois as bolas esféricas de feltro apresentam algum desgaste com o uso constante.
Na sua explanação, Marcelo Coutinho continua:
- “a origem do esporte até hoje é controversa. O certo é que os jogos teriam começado a ser disputados nas primeiras décadas do século passado, mais ou menos simultaneamente, em vários lugares diferentes, o que leva a crer numa geração espontânea, pois a idéia em si, não é muito difícil de ser imaginada.”
Marcelo Coutinho finaliza sua tese:
-       “nestes tempos o futebol começava a entrar na preferência popular, porém, os clubes onde se jogava futebol eram fechados às classes mais pobres. Jogar o futebol de botão era, deste modo, uma maneira econômica de imaginar-se em uma arena inalcançável para os jovens daquela época. “


No Brasil, tese do gaúcho Enio Seibert, de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, principal mentor e idealizador da Regra Unificada de Futebol de Mesa.
 
Alfaiates, artesãos da costura, tecelões e costureiras que participaram dos contingentes de colonos alemães e italianos, trazidos pelo governo brasileiro para povoar e cultivar as terras do sul do Brasil, a partir de meados do século XIX, trouxeram alguns tecidos para suas confecções rústicas, linhas de costura e botões de roupa, estes últimos (botões), equipamentos básicos para o surgimento e montagem do jogo que daria origem ao inédito futebol de botão, ao menos em terras sul-americanas ou sul-brasileiras.  Ou seja:
   As mesas de madeira que foram fabricadas a partir da montagem de tábuas cerradas das árvores nativas, encontradas na região, madeiramentos construídos para suportes dos balcões de costura de roupas, e marcações de medidas para cortes de ternos personalizados, serviram como campos de futebol de botão (com as áreas grandes e pequenas, linhas divisórias e retângulo do campo de jogo sendo demarcadas com o “giz de alfaiate”).
    Os botões maiores (grandes) utilizados nas capas, casacões e japonas de lã foram transformados em jogadores, defensores e atacantes das equipes que se formaram.
Os artesãos mais habilidosos já lixavam a parte superior dos botões, a parte inferior baixa, e as bordas laterais, geralmente arredondadas, para obter melhor angulação e desempenho dos craques, e os mais habilidosos também trabalhavam as fichas de jogos de carteados de plástico galalite dos clubes sociais, principalmente as redondas, transformando-as em jogadores de seus times.
Também os puxadores de móveis (de armários, escrivaninhas, balcões, roupeiros, etc) do plástico galalite, transformavam-se em excelentes craques após serem lixados em suas laterais para obtenção dos melhores ângulos de inclinação, ou seja, para poder arremessar melhor a bola e fazê-la encobrir o goleiro nos chutes a gol.
A fabricação artesanal de botões de osso e de chifre de boi, para roupas alternativas, para uso nas lides campeiras, ou confecções sofisticadas, também emprestava a sua colaboração na formação de novas equipes de futebol de botão que eram montadas, para deleite de jovens e adultos.     As goleiras eram improvisadas com pequenas traves de madeira, fixadas nas extremidades das mesas ou balcões de trabalhos dos artesãos da costura, ou moldadas de arame galvanizado, os quais, devidamente dobrados, davam uma melhor resistência e sustentação às goleiras, e as redes eram rústicas malhas de algodão das tecelagens implantadas, desde os primeiros tempos, nas cidades colonizadas pelos imigrantes. As tecelagens referidas destinavam-se, primordialmente, a produzir tecidos e matérias-primas diversas para a fabricação de agasalhos para abastecimento das populações do sul do Brasil, com climas semelhantes aos das regiões européias de procedência, sempre com temperaturas baixas no inverno.
   Os botões pequenos de camisas eram transformados em bolas que seriam arremessadas aos gols adversários pelos jogadores, finalidade maior do jogo, como no seu similar e inspirador futebol de campo.
    As fichas ou palhetas, destinadas a acionar os botões em campo, também eram feitas com os botões mais baixos e menos espessos, lixados ou não, conforme o formato do mesmo. Mais tarde, fichas de jogos de carteados (redondas, quadradas, retangulares ou ovais), encontradas nos clubes sociais, passaram também a serem usadas como palhetas para movimentar os botões, pois vinham praticamente prontas para seu uso devido aos seus formatos. Igualmente eram usados os puxadores de móveis, devidamente lixados e adaptados para palhetas.
   Os goleiros, inicialmente, eram os botões maiores e mais altos da equipe. No Rio Grande do Sul, esta prática durou até o final da década de 40. Anos mais tarde, foram substituídos por caixas de fósforo, pequenas caixinhas ou blocos retangulares de madeira, e na década de 50, os goleiros passaram a ser fabricados de placas do plástico galalite, um material nobre que era utilizado na fabricação de centenas de peças, acessórios e utensílios domésticos.
   Como foi relatado e pode ser visto, nas alfaiatarias, balcões de costura e fábricas-lojas de confecções de vestuários, havia praticamente todo o equipamento básico, se não para o nascimento (criação), mas, ao menos, para o desenvolvimento do jogo de futebol de botão, praticado nos intervalos de almoço e horários de lazer dos artesãos da costura e que viria a se constituir numa réplica em miniatura do incipiente futebol de campo.
    Por outro lado, é sabido através de fontes diversas que as primeiras partidas de futebol de botão foram jogadas sobre as calçadas, pisos de granitina, cerâmica ou mármore, e assoalhos de madeiras das casas e, mais tarde, tendo subido gradativamente, para plataformas ou mesas construídas de cimento (espécies de pilares em formato de caixa retangular ou tambor gigante, como a réplica do estádio Maracanã, construído em Bagé, no interior do Rio Grande do Sul, no ano de 1949, que sediou incontáveis jogos de futebol de botão entre seus proprietários, amigos e vizinhos).
Uma composição de música popular brasileira no século passado ajudava a imortalizar o futebol de botão da época, com o verso do refrão final que, explicitamente, cantava: “jogos de botões sobre a calçada...” Precisamos localizar esta gravação em disco LP ou 78 rotações.
Este fato nos foi relatado por Flávio Pereira, ex-alfaiate, ex-botonista e funcionário aposentado da CEEE, Companhia Estadual de Energia Elétrica do Estado, o qual, na época, tinha dez anos e era um dos privilegiados vizinhos que podia assistir e até disputar algumas partidas de futebotão, na réplica do Maracanã do Rio de Janeiro, construído para sediar a Copa do Mundo de Futebol da FIFA em 1950, no Brasil.
    Mais tarde ainda o futebol de botão deixaria os campos de cimento e similares para estabelecer-se nas mesas de madeiras das salas, onde se podia jogar, confortavelmente, de pé, e não mais rastejando agachado no chão, esfolando os joelhos e pernas, forçando a coluna vertebral e deixando as costas doloridas.
10- Em contrapartida, e demonstrando a evolução do jogo em Porto Alegre, uma reportagem da Revista do Globo da capital gaúcha, datada de 1944, já mostrava um grupo de jovens botonistas praticando o futebol de botão na Associação Lima e Silva, no bairro Cidade Baixa, jogando em mesas de madeira de 1,90 x 1,20 metros, apoiada sobre cavaletes também de madeira, enquanto, em outras localidades, no interior do Estado, ainda se jogava em mesas de cimento.
Um dos jovens retratados na referida revista era Lenine Macedo de Souza, que viria a tornar-se o mentor e fundador da primeira Federação organizada de futebol de mesa registrada no Brasil, no ano de 1961, e que estruturou toda a base deste esporte, com regras e regulamentos de competições modelares, a grande maioria seguidos até hoje.
 O jogo de futebol de botão, quando se transferiu para mesas de madeiras das salas e depois, para mesas próprias (estádios), sustentadas por cavaletes, para a prática deste esporte-lazer, com madeiras aplainadas e lixadas, apresenta acentuadas melhoras nas condições para a prática do jogo com o melhor desempenho dos botões, decorrente do deslizamento mais regular dos mesmos sobre a superfície plana.
O futebotão, certamente, ganhou muito na sua evolução e organização, em termos de regras, regulamentos, e principalmente, seriedade, pois, desde então, passou a contar também com o apoio e incentivo das pessoas de maior idade, iniciando uma nova fase em seu desenvolvimento, quando então foi contemplado com o outro nome pelo qual é conhecido até hoje: FUTEBOL DE MESA.
 Hipótese verdadeira ou tese inconsistente, suposição ou fundamentação, coincidência ou não, mas também eu próprio viria a ser influenciado e praticamente envolvido no mundo do futebol de botão de mesa por um tio, Lídio Orlando Böck, descendente de colonos alemães, alfaiate de ofício, funcionário da alfaiataria “A Fidalga”, na cidade de Cachoeira do Sul - Rio Grande do Sul, que possuía dois times de botões de roupa de galalite, que disponibilizava para empolgantes disputas de partidas de futebotão na mesa da família (ano de 1954).
Aliás, hábito que eu nunca mais abandonaria, desde os dez anos de idade, e lá se vão bons 53 anos daquela data.
Se o futebotão nasceu nas mesas de alfaiates e lojas de confecções, ou, ao menos, organizou-se e desenvolveu-se graças às condições favoráveis que encontrou, em termos de equipamentos (mesas de madeira e botões de confecção de vestuários), aliado às correntes imigratórias que se estabeleceram no sul do Brasil para a sua colonização, trazendo as fortes influências da cultura européia de esportes da época (descendentes de imigrantes alemães, italianos, portugueses e espanhóis, foram os fundadores das alfaiatarias Glória, A Fidalga, Lojas Bier- Ulmann, Lojas e Alfaiataria Guaspari, Lojas e Fábrica de Confecções Renner, Camisarias Tannhauser, dentre outros); ou se foi trazido diretamente por marinheiros europeus que atracavam nos portos das cidades litorâneas da América do Sul, e por extensão, também do Brasil; ou, ainda, se foi decorrente da geração espontânea em várias localidades da Europa e América (como, por exemplo, documento de divulgação de futebol de botão de mesa em Londres da época, ano 1910, jornal ou folheto impresso Leader e a regra impressa do “Futebol Celotex”, em 1930, primeiro nome dado ao futebol de botão brasileiro pelo pioneiro Geraldo Décourt, no Rio de Janeiro), quase simultaneamente, no início do século passado, com o florescimento do futebol de campo, seu inspirador e modelo, talvez nunca venhamos a descobrir.
O certo é que milhares de fanáticos e entusiastas apreciadores como nós, consideram este esporte simplesmente o melhor jogo do mundo, e não gostariam de vê-lo desaparecer gradativamente através dos tempos.
Muito pelo contrário, gostaríamos de vê-lo cada vez mais forte, praticado e divulgado no mundo inteiro, utlilizando a televisão, internet e a mídia impressa para a sua maior propagação e que o nosso esporte nunca deixe de ser o eterno “jogo dos sonhos”.



Texto de autoria de Enio Seibert (enioseibert@hotmail.com), botonista gaúcho, radicado em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, com cinqüenta anos de prática do botonismo. Principal mentor e idealizador da Regra Unificada e da União Brasileira de Futebol de Mesa.